segunda-feira, 27 de outubro de 2008

No quarto ao lado

Heróis não têm fantasia, capa ou super poderes. Heróis não têm dupla identidade ou fogem da polícia. Heróis não têm nomes de animais. Heróis, pra mim, têm nomes comuns, olhar triste e calo nas mãos. Heróis pra mídia têm corpo sarado ou muito dinheiro. É ai que me pergunto se esses são realmente heróis.
Pessoas que merecem créditos de verdade são aqueles que se arriscam todos os dias para servir aos outros ou até mesmo sua família, que se expõe a condições deploráveis e muitas vezes abandonam a sua dignidade para fazer a quem amam feliz. Minha mãe, meu pai e meus avós são maiores exemplos de heróis pra mim, todas as vezes que eu estive triste ou precisei se alguém foram eles que abriram mão de sua paz para dar a mim um sorriso.
Pedreiros que ficam pendurados em andaimes de arranha-céus para levar o pão pra casa, homens que andam quilômetros para chegar ao trabalho e dar seu dinheiro da passagem para o filho ir pra escola. Heróis verdadeiros são médicos que salvam vidas, ou que tem a coragem de admitir que não conseguiram. Homens nobres, humildes e honestos são melhores que homens que vestem capas vermelhas e carregam um “S” no peito.
Não sei por que quando ligo a TV não são esses que aparecem dando entrevistas. Quem recebe a adoração e admiração de multidões são aqueles que têm um corpo bonito ou tem destaque na novela das oito. Homens que se dizem políticos carregando crianças no colo quando na verdade só querem posar para foto. Modelos e artistas ganham capa de revistas, mas não são esse que sabem o verdadeiro significado de superação.
A mídia fez o seu conceito de herói e nele não precisa ser verdadeiramente heróico precisam só pensar que você é. Mesmo com essa nova idéia, prefiro admirar quem merece. O homem que pega na enxada e trabalha no sol, homem que defende uma causa regional, homem que defende a sua religião, homem que luta contra o preconceito, homem que adora a sua nação, esse e aquele que dorme no quarto ao lado são o que posso chamar de herói.

Texto : Lucas Sant´Anna

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Os demônios do retrato


Todo mundo é obrigado a passar por mudanças. Mas quando você não mudou e o ambiente te enxerga diferente do que realmente é?

Tudo começou com a mudança, sair de um mundo a outro, separados por apenas algumas quadras saiu do meio dos santos e foi conviver com os demônios, que no início pareciam apenas humanos. O de antes, um lugar onde andava sorrindo para todos, não que todos a amassem, não amavam, mas não sentia ódio, e os que gostavam, como gostavam.
Não é difícil de conversar, simpática e engraçadinha, mas esse ano ela tinha uma missão. Teve um castigo no ano anterior por ser a rainha do social, além dos finais de semana batia aquele papo de sete a meio dia. Era a mesma pessoa que saiu do céu atravessou a rua e entrou no covil. A mesma menina boba, mandona, engraçada, brincalhona, ela só tinha uma diferença, tinha que se dedicar agora.
O tempo foi passando e ela amava tudo aquilo, amava o fato de se sentir finalmente livre. O que ela não sabia é que estava algemada, e a corda ainda não tinha acabado, quando finalmente se sentiu em casa, as mascaras caíram e os demônios se mostraram. Sem perceber pintaram seu retrato na parede com óculos fundo de garrafa e sem dentes, além dos olhos juntos e a sobrancelha levantada, um mostro. A menina que até então era feliz e não tinha vergonha de ser ela mesma agora se esconde, ela vive a imagem da parede.
Nenhum diabinho tentou conhecê-la simplesmente quiseram assim. Pra eles ela É a imagem da parede. No final esquecem que ela pode não SER aquilo que PARECE. Agora está sozinha num canto olhando o quadro e querendo saber como ela pousou para aquela foto se ela não é assim, passa a mão no seu rosto e se pergunta por que eles não podem ver o que ela vê.
Os santos estão longe, o inferno a algemou. Dúvida, decepção, tristeza, angústia, depressão, escuridão. Fim da Linha.