
Você entra no colégio obrigado, com uns três ou quatro anos arrastados pelos seus pais. Vai logo dando de cara com uma tia gordona com um sorrisão no rosto que quer logo te abraçar e te beijar, mas não dá pra entender nada, além disso, você não tem a menor idéia porque todas as crianças estão chorando. Será que é porque aqui é ruim? Bom por via das dúvidas você começa a chorar também. Depois que passam os três ou quatro dias de desespero o negócio fica bom, você está vivendo a melhor fase da sua vida. Isso é uma coisa meio injusta, a gente não se lembra da melhor fase das nossas vidas... Mas voltemos ao colégio. Ahh o colégio, hora da soneca, depois da aula de música e antes da hora do desenho. O maior de seus problemas é conseguir ser o Ranger vermelho na hora do recreio e que o fim do dia não chegue, porque a hora de ir pra casa é sempre chata, o colo da tia gorda é o mais gostoso do mundo.
O ruim é quando esse colo é substituído por uma cadeira dura e geladíssima. A hora da soneca vira português, aula de música vira matemática e os seus desenhos que todo mundo elogiava? Esses viram provas de contas, e é ai, que o trauma da pessoa começa. No recreio as pessoas resolvem jogar bolas e as crianças de outras séries sempre acertam o seu nariz. Todo dia tem um tombo, todo dia você rouba o lanche de alguém. O ensino fundamental é uma selva, onde todas as crianças com seus instintos selvagens lutam pela sobrevivência. Até a quarta série você é feliz. Mas quando chegamos a quinta começam os “problemas de adulto”, algumas meninas começam a sangrar e você nada, os meninos começam a reparar em algumas meninas, as meninas começam a reparar em todos os meninos. Você não pode mais ir pro colégio “feia” ou os meninos sem tomar banho, é estamos entrando na puberdade. Não tem como não reconhecer uma criança de quinta a sétima série, são aqueles toquinhos de gente andando por ai com o nariz empinado, os meninos mais bobos que nunca e as meninas mais “adultas” que eu. Depois dessa transformação em sua vida, você teve que lidar com a recuperação, devido a tantos “problemas de adultos” as suas notas começam a cair, a primeira nota vermelha chega, os bilhetes na agenda, você começa a esquecer tudo e até a oitava série a sua responsabilidade fica em casa junto com o livro de inglês e o caderno de matemática. A única coisa que você leva pra escola até a oitava série (no meu tempo não tinha essa coisa de nono ano não) é um incrível vontade de interagir com o outro e uma profunda falta de interesse nos estudos.
Se o ensino fundamental é pura irresponsabilidade e vida mansa, o ensino médio é dez vezes pior, porque a irresponsabilidade triplica e as obrigações só aumentam. O primeiro ano de ensino médio é o ano em que somos divididos entre os certinhos e os loucos pelas festas de quinze anos. Festas de quinze anos corrompem os estudantes, você passa a aula de física pensando no vestido, a de história pensando no sapato, química pensando na maquiagem. Os meninos pensam nos três tempos nos tamanhos dos vestidos delas. E quando chega o sábado, todas as expectativas juntamente com a ebulição de hormônios se juntam com uma música de funk... Ahhh, as festas de quinze anos realmente transformam as pessoas. Mas como tudo tem um lado ruim, alguns ficam pelas festas de “quinze anos” mesmo, o primeiro ano é o ano onde alguns amigos começam a reprovar e os caminhos começam a mudar, pessoas entram e saem e o segundo ano vem pela frente. No segundo ano, tudo que você já passou vira “experiência de vida”, você se considera “forte pelas perdas”, um adulto. Mas uma vez você está errado, você é mais criança do que nunca, porque no fundo todos nós queremos voltar no tempo do Ranger vermelho. Os namoros ficam mais sérios, ou menos sério ainda, você sai do mundinho da escola. Pobres dos pais de um aluno de segundo ano, porque se as meninas de quinta-série achavam que eram gente, os alunos do segundo ano têm certeza, e querem sair por ai como se tivessem carro, responsabilidade e 18 anos na carteira (não que a maioria de nós já tenha). O segundo ano é, na realidade, um ano estranho. Estamos tão perto do fim como do começo do ensino médio, e o mais interessante é que não percebemos o quão perto estamos, é ai que é a hora de acreditar naquela vozinha que passou algumas vezes pela manhã na nossa sala dizendo: “Bom dia segundo quase terceiro”. É nesse ritmo de querer abraçar o mundo que chegamos ao final deste ano sem nem nos dar conta que o seguinte é o último.
O último ano começa, e você quer aproveitar a cada momento, mas você não pode aproveitar nada porque no final dele tem o vestibular. Você escuta todos os seus amigos falando que tem que viver cada minuto intensamente, e escuta seu pai dizendo que você tem que parar de viver. Você estuda pro colégio, e não sabe se funciona pro vestibular. Se você achava que algum dia teve problemas de verdade, descobre que era um idiota, e que o vestibular é o primeiro deles na sua vida. O final do último ano chega, e você tem milhões de lembranças pra guardar, milhões de emoções pra se misturar dentro de você. Mas para de ficar ai se olhando no espelho e corre: HOJE É A SUA FORMATURA.
Adaptado do meu discurso de Formatura !
2 comentários:
Noooosso discuurso! Que saudade.
Uma passagem suave e carinhosa pela vida de todos. Muito TRI!
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