terça-feira, 23 de agosto de 2011

Uma gota de amor


Estava no metrô com o livro nas mãos, segurando casaco em uma mão e bolsa na outra, toda atolada. Comecei então a me dedicar a minha leitura da semana, um livro de crônicas do Jabor que tem o título de uma música da Rita Lee. Já li textos maravilhosos dele, que me fizeram achar que ele pensa como todos os homens deveriam pensar. Pois bem, esse livro está sendo uma mística de amor e ódio, concordo com muita coisa e tenho raiva de um saudosismo presente em todos os cantos que exalta uma época que não conheço e critica ou lamenta os comportamentos dessa época em que vivo, a única que conheço. Arnaldo que me desculpe duplamente, primeiro pela raiva de sua obra e pelo julgamento dela sem nenhuma autoridade no assunto e segundo pela intimidade acima pra evitar a repetição.
No texto “O amor deixa muito a desejar” já comecei a sentir o estômago embrulhando e uma vontade de gritar quando me deparei com a afirmação que o único amor verdadeiro são aqueles amores impossíveis. Tive vontade de sacudir o Jabor e falar: “Ei, amigão, se você não ama, me desculpa, mas se o amor verdadeiro é o amor impossível me explica o que é aquilo que eu senti!”. Tudo bem, eu tenho 19 anos, e vão me dizer que era uma paixão adolescente, mas não era. Eu amei alguém como eu nem acreditava que podia amar, amei mais que a mim mesma em alguns momentos, amei amar. Mas então pensei que ele podia estar falando de outra coisa, de amor pra vida inteira e isso não foi, não foi porque acabou, virou amizade, virou consideração e depois virou nada.
Continuei a ler, e depois de ler mais afirmações que negavam que o amor exista nos dias de hoje, que dizia que ele tinha sido extinto pela publicidade, pela produção, pelo culto ao corpo... Fiquei irritada, fiquei e não concordava com nada daquilo e levantei os olhos negando doar-lhes ao resto da leitura na tentativa de punir o autor por aquelas afirmações. Foi então que eu o vi, o amor, ele estava na minha frente em forma de gente e, por um momento, achei que podia tocá-lo.
Um senhor e uma senhora de bastante idade estavam segurando no ferro ao lado dos bancos preferências, ocupados por pessoas até mais jovens que eles que fingiam dormir e/ou não vê-los, típico. Uma parada brusca do trem fez com que a senhorinha se desequilibrasse e o senhor segurou a mão dela forte e eles se olharam. Nossa, eu nunca senti o amor tão perto de mim, senti vergonha de olhar, parecia que aquele momento pertencia só a eles, como se precisassem somente um do outro e mais nada e foi ai que veio em minha cabeça: “AHÁ, JABOR, ONDE ESTÁ SEU AMOR IMPOSSÍVEL AGORA?”.
Foi ai que o trem freou de novo e eu larguei minha batalha com o cronista no chão e segurei o casal para que eles não caíssem. Não sei por que segurei com tanta agilidade, porque eu larguei tudo para impedir que qualquer coisa acontecesse com eles... Pensando bem, acho que os segurei com medo de que Arnaldo estivesse certo, que o amor não existe mais, apesar de não concordar, tive medo de estar errada. É, foi por isso que os segurei, com medo de deixar qualquer coisa acontecer com a última gota de amor no mundo.

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