
Texto baseado no poema "O bicho" de Manuel Bandeira
Passei a noite toda ansioso, mordia a gola da blusa como fazia sempre que estava muito, muito nervoso mesmo. O motivo nem eu mesmo sabia ao certo, o que eu sabia era que meu estomago nunca falhava, ele sempre ficava como se umas mil borboletas estivesse voando dentro dele quando era algo diferente se aproximando. As mil borboletas estavam certas, o caminhão que chegara ao lixão naquela noite tinha AQUELE aroma, aquele perfume que me deixava louco!
Como meu nariz tinha me confirmado o lixo estava cheio, lotado com restos de comida, o que significava que pela primeira vez um uma semana minhas amigas, dor e fome, até ai já parte de mim, iam me dar uma trégua, me deixar um pouco sozinho. Agora eu podia parar de ouvir aquele barulho que vinha de dentro e virava dor na boa do estômago. Era a hora da busca.
Subi no topo de uma pilha de lixo e comecei a procurar, bem devagar, porque se tem uma coisa que me deixa pra lá de chateado é achar um troço gosto de comer e na pressa esfarelar tudo! Latas, mordia, o barulho ainda estava lá. Sabão, mordia, mas a dor ainda estava lá. Borracha, mordia a fome não soltava a minha mão. Papel, mordia, a dor apertava o meu braço. Passaram horas, a dor tomava conta do meu corpo, mas porque eu ainda sentia o cheiro? Olhava em volta e não via nada, lá estava eu sozinho. Sozinho, sozinho não, as meninas não me largam nunca. Senti o cheiro diferente, lá longe tinha um latão, tão grande e verde. Corri em direção mais rápido do que aqueles carros que passam na televisão dos restaurantes aos domingos. Lá estavam eles, os pedaços mais saborosos desperdiçados por cada uma dessas famílias. Pegava aos montes e metia tudo na boca de uma vez só. Nem me importava com o homem que de longe olhava, ele podia querer um pouco, ele que viesse pegar, a dor e a fome estava indo embora e eu só saberia dizer “Adeus”.
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